segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A República dos Negócios - Meio Século de Delapidação e o Regresso do Contribuinte Pagador

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A República dos Negócios
Meio Século de Delapidação e o Regresso do Contribuinte Pagador
Como privatizámos os lucros, socializámos os prejuízos e transformámos Portugal num balcão de negócios para alguns, enquanto as vítimas pagam duas vezes.
A tempestade Kristin varreu o país na noite de 27 para 28 de janeiro. Telhados voaram, estradas racharam, redes elétricas colapsaram. O governo anunciou 2,5 mil milhões em medidas de apoio. Justo e necessário, dirão. Mas a pergunta que não se faz é: porque é que o Estado é sempre chamado a pagar, enquanto os privados que exploram estas infraestruturas e recolhem lucros em tempo normal se evaporam quando chega a hora da conta?
A resposta obriga a uma viagem de meio século pela história recente de Portugal.
I. O Modelo: Privatizações e PPP
Entre 1985 e 1995, a "década de betão" de Cavaco Silva lançou as bases: privatizações "habilidosas" que contornaram a Constituição, transferindo empresas públicas para mãos privadas. O argumento: o Estado é mau gestor, os privados trarão eficiência e preços mais baixos.
Trinta anos depois, o balanço é arrasador.
A EDP foi privatizada em 2012. A China Three Gorges comprou 21,35% por 2,69 mil milhões. Numa década, recebeu 1,61 mil milhões em dividendos (60% do investido) e a participação vale o dobro. Entretanto, a EDP reduziu a capacidade instalada em Portugal em 25%, os trabalhadores caíram 20%, e o investimento fugiu para o Brasil e América do Norte. Ficámos com uma das eletricidades mais caras da Europa.
Os CTT renderam 909 milhões ao Estado em 2013-2014. Hoje valem 500 milhões (menos 44%). Os acionistas receberam 375,8 milhões em dividendos (mais de 40% do encaixe). O serviço degradou-se.
A Portugal Telecom foi privatizada em 1995 por 2,8 mil milhões (avaliação). Vinte anos depois, após o negócio ruinoso com a Oi, valia 640 milhões – destruição de 75% do valor.
Só EDP, Galp e REN distribuíram 3,7 mil milhões em dividendos em cinco anos. O lucro foi para os acionistas; o risco ficou para o Estado.
II. As Parcerias Público-Privadas: Risco Zero para o Capital
Nas PPP, o modelo é ainda mais perverso: lucro privado, risco público. Os contratos rodoviários são o exemplo perfeito.
Se o tráfego é menor que o esperado, o Estado paga (subsídio à disponibilidade). Se há uma pandemia ou tempestade, o privado pede reposição do equilíbrio financeiro. As portagens são altíssimas – o lucro vai para os acionistas. A estrada degrada-se ou é destruída – o Estado paga a reparação.
No final de 2025, as PPP reclamavam 1.751 milhões ao Estado. A Brisa pediu 221 milhões pela pandemia; a Subconcessão Algarve Litoral reclama 331 milhões; a Douro Interior, 232,6 milhões.
Padrão: quando o negócio corre mal, o privado bate à porta do Estado. O risco, afinal, nunca foi privado. Nós pagamos as portagens mais caras da Europa e os impostos que compensam os privados.
III. Quem Perdeu Tudo
Seis dias após a tempestade, em Leiria, centenas faziam fila no pavilhão municipal para receber alimentos e material de construção. Famílias que viram os telhados voar a 176 km/h, que perderam móveis, colheitas, o pouco que tinham.
Catorze pessoas morreram. Duas caíram do telhado a tentar reparar sozinhas. Uma morreu intoxicada por monóxido de carbono do gerador – porque a eletricidade, a mais cara da Europa, colapsou. O hospital de Leiria atendeu mais de meia centena de feridos em trabalhos de limpeza e reconstrução.
O presidente da Câmara de Alvaiázere: "Os bombeiros voluntários estão exaustos." A resposta do Estado foi "lenta, insuficiente e distante". O interior, mais uma vez, entregue a si próprio.
IV. O Socorro que Endivida
O pacote de 2,5 mil milhões não é um cheque em branco. É:
· Apoios diretos: 10.000 euros para habitações próprias. Insuficientes.
· Moratórias: suspensão de créditos por 90 dias. Não é perdão, é adiamento. A dívida continua, a vencer juros.
· Linhas de crédito: 1,5 mil milhões em empréstimos. Que terão de ser pagos, com juros.
O Estado cobra juros pela disponibilidade de tesouraria. Funciona como um banco.
O pequeno empresário, o agricultor, vê a exploração destruída. Precisa de dinheiro para reconstruir. O Estado empresta. Ele fica com uma dívida. Durante anos, vai trabalhar para pagar ao Estado o empréstimo que lhe permitiu reconstruir o que a tempestade levou.
Entretanto, a EDP, a Brisa, as operadoras, cujas infraestruturas também foram afetadas, recebem dinheiro do Estado – "investimento público", "reposição do equilíbrio financeiro", "obras emergenciais". Não terão de pagar juros. Não terão de pedir empréstimos. Receberão a fundo perdido.
V. A Injustiça Final: Pagar Três Vezes
O cidadão comum paga três vezes:
1.ª vez: Pagou durante anos as portagens, a eletricidade e as comunicações mais caras da Europa. O dinheiro encheu os bolsos dos acionistas.
2.ª vez: Paga os impostos que o Estado usa para reconstruir as estradas e redes desses mesmos privados. 400 milhões para a Infraestruturas de Portugal reconstruir estradas exploradas por concessionárias. 200 milhões para autarquias reconstruírem equipamentos concessionados.
3.ª vez: Paga um empréstimo com juros para reconstruir a sua própria casa ou negócio. Fica endividado durante anos. O Estado cobra-lhe juros – os mesmos que, em parte, servirão para pagar os próximos resgates aos privados.
A tempestade passou. A factura fica. E quem a paga são as pessoas que fazem fila em Leiria à espera de comida. São os bombeiros exaustos. É a família que enterrou um parente caído do telhado.
VI. Os Figurões e a Teia da Promiscuidade
Manuel Pinho é o símbolo máximo. Ministro da Economia (2005-2009), antes diretor-geral do Tesouro, depois passou para o Banco Espírito Santo. Enquanto ministro, recebia 15 mil euros mensais do GES, via offshores no Panamá – 778 mil euros no total, pagos pelo "saco azul" do grupo. Em troca, favorecia os interesses do GES. É suspeito de ter favorecido a EDP em negócios que lesaram o Estado em 840 milhões de euros, em troca de a empresa pagar o seu salário na Universidade de Columbia.
Condenado em 2024 a 10 anos de prisão efetiva. Sentença confirmada em abril de 2025. Está em prisão domiciliária, aguardando recurso. Num segundo processo, foi acusado com António Mexia (ex-CEO da EDP) e João Manso Neto.
E os outros? Mexia e Manso Neto foram acusados de corrupção ativa. Ricardo Salgado (ex-GES) indiciado, mas com diagnóstico de Alzheimer. José Sócrates enfrenta a Operação Marquês há mais de uma década.
As portas giratórias: António Mexia veio do setor público. João Talone circula entre a EDP, Mota-Engil, Parpública e ANA. Rui Cartaxo e João Conceição, assessores de Pinho, foram para a REN. Artur Trindade, ex-secretário de Estado, é administrador de várias empresas, incluindo a EDP.
Quem hoje está no governo a regular um setor, amanhã pode estar na empresa regulada a receber um salário várias vezes superior. O sistema é desenhado para a corrupção.
VII. Onde Está a Comunicação Social?
As investigações existem, mas enfrentam:
1. Falta de continuidade: os casos desaparecem da agenda.
2. Dependência económica: os grupos de comunicação social são empresas com acionistas, dependem de publicidade estatal e de grandes grupos económicos.
3. Falta de recursos: o jornalismo de investigação é caro, as redações estão mais pequenas.
4. Conformismo: crise de confiança nos media, vistos como alinhados com o poder.
O escrutínio é insuficiente. A memória curta é aliada do sistema.
VIII. Onde Está a Justiça?
O Ministério Público e juízes como Carlos Alexandre fazem um trabalho notável. A condenação de Pinho é histórica. Mas o sistema é lento.
O processo de Pinho arrastou-se anos. O da EDP também. O da Operação Marquês leva mais de uma década. Os recursos sucedem-se, os arguidos envelhecem, alguns morrem antes da condenação.
E mesmo com condenações, raramente há recuperação dos ativos desviados. O dinheiro em offshores, em paraísos fiscais, dificilmente regressa. O contribuinte paga a fatura; os corruptos, quando muito, cumprem pena em casa.
A justiça funciona devagar demais para ser dissuasora.
IX. Quem Defende Portugal?
O Ministério Público e alguns juízes fazem o seu trabalho, mas enfrentam um sistema que os atrasa. Alguns jornalistas investigam, mas com recursos escassos. Poucos políticos têm coragem de enfrentar o sistema pois PS e PSD dependem dos mesmos grupos económicos para financiamento ou para empregos futuros.
A verdade crua: os interesses dos portugueses têm sido sistematicamente sacrificados no altar dos interesses privados. As privatizações não reduziram a dívida (aumentou), não baixaram os preços (dispararam), não melhoraram os serviços (degradaram). Serviram para transferir património público para mãos privadas, empobrecer o Estado, enriquecer acionistas e criar uma elite que circula entre o público e o privado sem escrúpulos.
Todos os partidos que governaram privatizaram, fizeram PPPs, alimentaram as portas giratórias, aceitaram financiamento dos mesmos grupos.
X. O Que Fazer?
1. Acabar com as portas giratórias: impedir por lei que governantes transitem para empresas dos setores que regularam.
2. Renegociar as PPP: se o risco é público, o lucro também deve ser público.
3. Repensar as privatizações: setores estratégicos (energia, transportes, comunicações, água) não podem estar inteiramente na lógica do lucro privado.
4. Repensar o modelo de ajuda: não pode ser que grandes empresas recebam fundo perdido e famílias recebam empréstimos com juros. Se o Estado empresta, que seja a juro zero, com perdão em caso de impossibilidade.
5. Fortalecer a comunicação social independente: financiamento público para jornalismo de investigação.
6. Acelerar a justiça: dar meios aos tribunais, simplificar procedimentos.
7. Uma nova geração política: que não esteja comprometida com o modelo, que não dependa dos grupos económicos.
XI. Conclusão: A Conta Chega Sempre
A tempestade passou. A reconstrução vai começar. E, como sempre, quem paga a fatia maior da conta somos nós – os contribuintes que já pagaram as privatizações, que pagam as portagens, que pagam a energia mais cara da Europa, e que agora pagam os impostos que financiam a recuperação.
Os lucros já seguiram para os acionistas. A China Three Gorges continua a receber dividendos. A Brisa continua a cobrar portagens. As operadoras continuam com fidelizações absurdas.
Nós continuamos a pagar. Sempre a pagar.
Mas desta vez, não pagamos apenas com impostos. Pagamos também com o nosso endividamento. As famílias que perderam tudo e pediram empréstimos ao Estado vão passar anos a pagar juros. Os pequenos empresários vão ver os seus negócios sobrecarregados com dívidas. Uma nova geração de devedores está a ser criada – não por má gestão, mas porque uma tempestade lhes levou o telhado e o Estado, em vez de ajudar, lhes emprestou dinheiro com juros.
Enquanto isso, nos gabinetes, os administradores das grandes empresas e os ex-governantes que para elas transitaram preparam os próximos contratos, as próximas concessões, as próximas privatizações. O sistema continua. A máquina não para.
Até quando vamos aceitar este modelo? Até quando vamos permitir que o risco seja sempre público e o lucro sempre privado? Até quando o contribuinte será o pagador de última instância de um sistema desenhado para o explorar? Até quando vamos aceitar que quem perde tudo ainda fique a dever?
A resposta, já sabemos, é a mesma: servem para garantir o lucro em tempo normal. O risco sistémico, o evento catastrófico, o "imprevisível" – isso é sempre transferido para o Estado. Para o contribuinte. Para si. Para mim. Para todos nós.
A conta chega sempre. E quem paga somos sempre nós. Mesmo quando perdemos tudo. Mesmo quando temos de pedir emprestado para reconstruir o pouco que tínhamos.
Para as vítimas de Leiria, de Alvaiázere, de todo o interior: a vossa luta é a nossa luta. A vossa dívida não é vossa. É a fatura de um modelo que há 50 anos transfere riqueza de todos para alguns. Um dia, talvez, essa fatura seja apresentada a quem deve.
Este artigo é dedicado a todos os portugueses que pagam impostos, portagens, eletricidade cara e seguros que não servem para nada. E, em especial, àqueles que, depois de perderem tudo, ainda terão de passar anos a pagar juros ao Estado para reconstruírem o pouco que tinham.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

TRABALHAR PARA O ESTADO: A ESCRAVIDÃO FISCAL PORTUGUESA

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TRABALHAR PARA O ESTADO: A ESCRAVIDÃO FISCAL PORTUGUESA
ARTIGO DE OPINIÃO – RICARDO GRAÇA
Portugal tem um dos sistemas fiscais mais complexos e pesados da Europa. A carga fiscal total situa-se entre as mais elevadas da União Europeia, frequentemente ultrapassando os 35% do PIB. E não são apenas meia dúzia de impostos. São dezenas. IRS, IRC, IVA, IMI, IMT, ISV, IUC, ISP, IT (Imposto sobre o Tabaco), IABA (Imposto sobre Bebidas Alcoólicas), Imposto de Selo, AIMI, Derrama Municipal, Derrama Estadual, Contribuição Extraordinária sobre o Sector Energético, Contribuição sobre o Sector Bancário, TSU, Contribuição para a Segurança Social dos Trabalhadores Independentes, Imposto sobre Veículos, Taxa de Recursos Hídricos, Taxa de Gestão de Resíduos, Taxas Municipais (dezenas), Portagens, Taxas Moderadoras, Contribuição Audiovisual, Taxa sobre Sacos de Plástico, e muitos outros. Um cidadão comum nem sequer sabe quantos impostos paga. Porque estão escondidos. Embutidos nos preços. Camuflados em taxas. Disfarçados de contribuições. O Estado cobra. Sempre. Em tudo. E quando comparas Portugal com outros países europeus, a verdade é brutal: portugueses pagam impostos escandinavos mas recebem serviços públicos de país pobre. Carga fiscal elevadíssima. Retorno miserável.
Um trabalhador português não paga apenas IRS. Paga dezenas de impostos. Directos e indirectos. Visíveis e escondidos. Sobre tudo. Sempre.
No salário: IRS (até 48% nos escalões altos, podendo chegar a 53% com a Taxa Adicional de Solidariedade de 5% para rendimentos acima de €250.000) + TSU (11% retido, mais 23,75% pago pela entidade patronal)
No consumo: IVA (23% na maioria dos bens), ISP (parcela muito significativa do preço do combustível), impostos sobre tabaco e álcool
Na habitação: IMI (anual), IMT (até 7,5% na compra), Imposto de Selo (0,8%), AIMI (para património acima de seiscentos mil)
Nos transportes: IUC (anual), ISV (na compra do carro), ISP, IVA sobre tudo
Nas heranças: Imposto de Selo (10% do valor para herdeiros não diretos; cônjuges, descendentes e ascendentes estão isentos mas devem declarar)
Nos actos: Imposto de Selo sobre créditos, garantias, actos bancários
Taxas municipais: Saneamento, resíduos, conservação, dezenas de outras
Somando tudo, um português médio entrega ao Estado entre 50% e 70% do que ganha ou gasta.
Isto não é tributação. É confisco!
A VIOLAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO
Artigo 103.º — Sistema fiscal justo
A Constituição estabelece que o sistema fiscal visa "repartição justa dos rendimentos e da riqueza."
Quando o Estado fica com mais de metade do que o cidadão ganha, onde está a justiça? Quando tributas salário, tributas consumo, tributas habitação, tributas herança, tributas tudo, onde está o equilíbrio?
Sistema que tributa tudo, sempre, múltiplas vezes, não é justo. É predatório.
Artigo 104.º — Impostos não confiscatórios
O Tribunal Constitucional afirmou em múltiplos acórdãos que impostos não podem ter efeito confiscatório. Estado não pode, através de impostos, retirar ao cidadão a substância do seu rendimento ou património.
Mas quando somamos IRS, TSU, IVA, IMI, IUC, ISP, IMT, Imposto de Selo, taxas várias - o efeito é confiscatório. Estado retira ao cidadão a maior parte do que ganha. Não deixa margem para viver com dignidade.
Trabalhador que entrega metade do rendimento em impostos directos e indirectos não tem liberdade económica real. Vive para pagar impostos. Trabalha para o Estado. Isto não é tributação legítima. É servidão fiscal.
Artigo 1.º — Dignidade da pessoa humana
Cidadão que trabalha mas não consegue viver porque impostos consomem rendimento não vive com dignidade. Sistema fiscal que obriga pessoa a escolher entre pagar impostos e viver dignamente viola o fundamento da República. Viola a dignidade humana.
DUPLA, TRIPLA, MÚLTIPLA TRIBUTAÇÃO
Portugal tributa a mesma matéria múltiplas vezes.
Salário: Pagas IRS + TSU. Quando gastas o que sobrou, pagas IVA. Tributação tripla sobre o mesmo rendimento.
Habitação: Compras casa: IMT + Imposto de Selo. Todos os anos: IMI. Se venderes: mais-valias. Se deixares em herança: Imposto de Selo. Tributação múltipla sobre o mesmo bem.
Combustível: ISP (já elevado) + IVA calculado sobre (preço + ISP). Imposto sobre imposto. Um dos abusos mais escandalosos.
Heranças: Pessoa trabalha vida inteira, paga IRS sobre rendimento, poupa, compra casa (paga IMT e Imposto de Selo), paga IMI anualmente, morre, herdeiros não diretos pagam Imposto de Selo sobre herança. Património já tributado múltiplas vezes é tributado outra vez.
Onde está a justiça? Estado já tributou aquele património dezenas de vezes. E quando pessoa morre, tributa outra vez. Nunca acaba.
IMPOSTOS PARTICULARMENTE ABUSIVOS
IMI — O imposto eterno
Compras casa. Pagas IMT (milhares de euros). Pagas Imposto de Selo. Pensas: "Pronto, já paguei."
Não. Todos os anos, para sempre: IMI.
Nunca acabas de pagar. Casa é tua, mas pagas ao Estado eternamente. Se não pagares, Estado executa-te. Penhora a casa. Vende. Ficas sem casa.
Isto é propriedade? Ou és rendeiro perpétuo do Estado?
Muitos idosos com reformas miseráveis não conseguem pagar IMI. Perdem casa na velhice. Por não terem dinheiro para imposto anual sobre casa que já era sua.
E pior: Valor Patrimonial Tributário é muitas vezes errado. Inflacionado. Casas avaliadas acima do valor real. Geram IMI excessivo. Milhares de proprietários pagam IMI sobre avaliações erradas durante anos porque não sabem que podem contestar.
IMT — O imposto sobre comprar casa
IMT pode chegar a 7,5% do valor. Mais de vinte mil euros numa casa de trezentos mil euros. Mais Imposto de Selo (0,8%). Total: quase vinte e cinco mil euros de impostos para comprar casa.
Jovem casal que junta dinheiro durante anos vê parte brutal ir para impostos. Em vez de abater no crédito, paga ao Estado. Fica com crédito maior, juros maiores, durante trinta anos.
Imposto de Selo em heranças
Familiar morre. Deixa herança. Casa, poupanças, terreno.
Para herdeiros diretos (cônjuges, filhos, pais, avós): isentos de imposto, mas devem declarar a herança.
Para outros herdeiros: Estado tributa 10% do valor.
Herdas casa avaliada em duzentos mil euros? Pagas vinte mil de imposto. Se não tiveres dinheiro, tens de vender para pagar imposto. Ou pedir empréstimo.
Pessoa que morreu trabalhou vida inteira. Pagou IRS sobre rendimento. Pagou IVA sobre consumo. Pagou IMI sobre casa. Pagou tudo. E quando morre, Estado tributa outra vez.
Há famílias que recusam heranças. Porque imposto é tão alto que não compensa aceitar. Estado fica com tudo. E chama a isto "justiça fiscal".
IRS — Confisco progressivo
Taxas de IRS podem chegar a 48% de taxa marginal. Para rendimentos muito elevados (acima de €250.000), acresce Taxa Adicional de Solidariedade de 5%, atingindo taxa efetiva de 53%. Trabalhas mais, ganhas mais, Estado fica com mais de metade do aumento. Desincetivo total ao esforço.
Classe média é esmagada. Não é rica para escapar através de planeamento fiscal sofisticado. Não é pobre para ter isenções. Paga. Muito.
IVA — Imposto sobre tudo
IVA de 23% é um dos mais altos da Europa. E incide sobre quase tudo.
Cidadão gasta cem euros, vinte e três vão para Estado. Sempre. Em tudo.
IVA é imposto regressivo. Pobre que gasta todo o rendimento em consumo paga proporcionalmente muito mais que rico que poupa.
COMPARAÇÃO EUROPEIA
Portugal tem uma das cargas fiscais mais elevadas da União Europeia. Mas não tem serviços públicos à altura.
IVA normal: Portugal tem 23%, uma das taxas mais altas da Europa
IRS marginal máximo: 48% (53% com Taxa Adicional de Solidariedade), ao nível dos países mais tributados
Imposto sobre combustível: Portugal no top europeu
Pior dos dois mundos: Português paga impostos escandinavos. Recebe serviços públicos de país pobre. Hospitais sobrelotados. Escolas degradadas. Transportes insuficientes. Justiça lenta.
Pagas muito. Recebes pouco. Para onde vai o dinheiro? Despesa pública ineficiente. Burocracia. Empresas públicas deficitárias. Desperdício.
OS DIREITOS QUE MUITOS DESCONHECEM
Apesar da carga fiscal brutal, contribuintes têm direitos. Podem contestar. Podem impugnar. Podem defender-se. Mas maioria não sabe.
Recebeste liquidação de IRS, IMI, IMT que consideras excessiva ou errada? Podes impugnar.
Autoridade Tributária erra. Frequentemente. Liquida impostos a mais. Não aplica deduções. Não considera isenções. Calcula mal.
Prazo: 120 dias. Perdeu o prazo, perde o direito. Mas muitos nem sabem que podem impugnar. Pagam. Mesmo quando liquidação está errada.
O valor Patrimonial Tributário é muitas vezes errado. Inflacionado. Casa avaliada acima do valor real de mercado.
Contribuinte pode pedir segunda avaliação. Pode contestar. Se conseguir provar que VPT está errado, IMI desce. Para sempre.
Muitos proprietários pagam IMI brutal sobre avaliações erradas durante anos porque não sabem que podem contestar.
Se estás a ser executado por dívidas fiscais, podes opor-te.
Fundamentos: dívida prescrita, falta de notificação válida, erro no cálculo, pagamento já efectuado, reversão indevida, excesso de penhora.
Prazo: 30 dias após citação. Curto. Perdeu, perdeu direito de defesa.
Muitas execuções fiscais são ilegais. Dívidas prescritas. Notificações inválidas. Mas maioria dos executados não se defende. Não conhece direitos. Perde tudo.
Há isenções. Há benefícios fiscais. Para determinadas situações. Mas têm de ser pedidos. Autoridade Tributária não os aplica automaticamente.
Exemplo: isenção de IMI para habitação própria e permanente (em certos casos). Isenção de IMT para jovens. Benefícios para reabilitação urbana. Deduções específicas em IRS.
Muitos contribuintes têm direito mas não pedem. Porque não sabem. Pagam impostos que podiam evitar.
CONCLUSÃO
Portugal tem carga fiscal brutal. Confiscatória. Inconstitucional na sua globalidade.
Impostos sobre tudo. Sempre. Múltiplas vezes. IRS, IVA, IMI, IMT, ISP, IUC, Imposto de Selo, TSU, taxas, contribuições. Tributação que consome mais de metade do rendimento do cidadão.
A Constituição estabelece que sistema fiscal deve ser justo, que impostos não podem ser confiscatórios, que dignidade da pessoa humana é fundamento da República. Mas carga fiscal actual viola tudo isto.
E muitos contribuintes pagam ainda mais do que deviam. Porque Autoridade Tributária erra. Porque liquidações vêm com valores excessivos. Porque avaliações de IMI estão inflacionadas. Porque execuções fiscais correm sobre dívidas prescritas.
Mas contribuintes têm direitos. Podem impugnar. Podem contestar. Podem defender-se. Desde que conheçam a lei. Desde que ajam dentro dos prazos.
A Constituição protege-os. A lei dá-lhes instrumentos. Mas têm de os usar. Enquanto ainda podem. Porque prazos são curtos. E Estado não espera.
NOTA FINAL
Se foi tributado excessivamente, se recebeu liquidação que considera errada, se está a pagar IMI sobre avaliação inflacionada, se está a ser executado por dívidas fiscais, saiba que tem direitos.
A Constituição protege contribuintes contra tributação confiscatória. A lei prevê mecanismos de impugnação, revisão, contestação.
Mas os direitos fiscais têm prazos curtos. Impugnação de liquidação: 120 dias. Oposição a execução fiscal: 30 dias. Perdeu o prazo, perde o direito.
Não aceite tributação abusiva sem questionar. Não pague impostos que não deve.
A Autoridade Tributária erra. Frequentemente. Liquida a mais. Executa dívidas prescritas. Avalia imóveis acima do valor. Não aplica isenções. E conta que contribuinte não questione.
Questione. Informe-se sobre os seus direitos. Verifique se liquidação está correcta. Verifique se execução é legal. Verifique se avaliação de IMI corresponde à realidade.
Muitos contribuintes recuperaram valores pagos indevidamente através de impugnações bem-sucedidas. Muitos viram execuções fiscais extintas por prescrição. Muitos conseguiram redução de IMI através de segunda avaliação.
Mas só conseguiram porque conheciam os direitos. Porque agiram dentro dos prazos. Porque não aceitaram passivamente.